A tecnologia humanizando a saúde e sensibilizando o médico: as lições do criador do Robô Laura
9 de março de 2021
Jacson Fressatto queria ajudar o sistema de saúde a salvar vidas. Mas, antes de oferecer uma solução tecnológica, ele precisou perguntar aos médicos e enfermeiros o que eles realmente precisavam para cumprir esse papel

Digibee

Melhorar a jornada não só do paciente, mas de todos atores envolvidos na assistência à saúde – médicos, enfermeiros, hospital, remédios, processos –, é também como Jacson Fressatto  define “inovação em saúde”. “Não tem a ver com ‘fazer diferente’. Se você conseguir trazer celeridade e assertividade à jornada, você melhora o resultado de todos. E essa deve ser a premissa.”

O Robô Laura, solução de inteligência artificial e monitoramento clínico que ele idealizou,  foi conquistando espaço no setor ao longo dos anos, se estabelecendo em grandes hospitais e instituições do País. Já realizou mais de 8 milhões de atendimentos e ajudou a salvar quase 25 mil vidas desde sua estreia, em 2016. A constatação de que a tecnologia é um elemento essencial para a evolução do atendimento de saúde é óbvia, mas inúmeras barreiras ainda impedem sua ampla implantação nas instituições. E, ele ressalta, esse problema não é só do Brasil. “É o nosso primeiro engano.”

Jacson participou da primeira Happy Hour DigibeeR de 2021: A Tecnologia nos ambientes Hospitalares e seus benefícios para o ecossistema e paciente. Veja como foi!

Após visitar uma das maiores escolas de Enfermagem dos Estados Unidos, na Universidade Columbia, em Nova York, Jacson se espantou duas vezes. Primeiro, ao observar os centros de pesquisa e testes com inteligência artificial, que incluem até uma simulação de parto feito por um robô. Depois, ao constatar que menos de um quarto dos enfermeiros norte-americanos tem acesso a essa tecnologia. 

“A saúde não é consumidora de TI. Ela é geradora de demanda. Nós temos que perguntar aos profissionais de saúde para descobrir o que eles precisam. Se determinamos que eles façam de um certo jeito, simplesmente não vai acontecer.”

Uma lição prática utilizada na implantação do Robô Laura, por exemplo, foi priorizar as tecnologias que enfermeiros e médicos estão mais acostumados e agregá-las à solução, de alguma maneira. “Se eles usam WhatsApp em vez de e-mail e SMS, por exemplo, coloquemos o sistema para conversar com o Whatsapp.” “Fornecer a tecnologia para esse ambiente é entender a necessidade deles com a tecnologia, e não supor que eles precisam de tecnologia.”

A tecnologia como aliada

A monitoração constante e completa dos pacientes, requisitando a presença de enfermeiros para a coleta de informações clínicas, evita mortes e representa também uma economia de recursos para as instituições – ou, como Jacson diz, o uso adequado de recursos.

“Vamos imaginar que o hospital tem uma enfermeira monitorando um paciente por determinadas horas. Se esse paciente entra em crise, o hospital pode precisar de cinco enfermeiras, um médico, um centro cirúrgico e uma UTI. São gastos que poderiam ter sido evitados se houvesse uma contenção de dano ainda no leito do paciente. É aí que podemos falar em economia.”

O criador do Robô Laura observa o médico como o único agente que, numa gestão de crise, poderá contornar toda a estrutura do corpo clínico para acessar diretamente os equipamentos e processos caso precise salvar a vida dos pacientes. Se for necessário ir direto ao laboratório para acessar um exame, ou pegar um remédio na farmácia, o médico pode fazer essa autorização. Mas ele reconhece que o peso do desfecho não é exclusivo da tecnologia: parte essencial da rota é a sensibilização do profissional. E isso Jacson aprendeu há mais de dez anos, quando sua filha Laura ainda estava em gestação. 

Sua esposa à época acordou durante a madrugada relatando “não sentir” o bebê – um sintoma difícil de explicar seguindo os padrões clínicos, mas que tirou a paz da mulher. No hospital, a obstetra não conseguiu auscultar – termo técnico para escutar sons internos do corpo – o batimento do bebê e apenas entregou um papel com o pedido de uma ultrassonografia, que demoraria alguns dias para ser realizada. O casal, angustiado com a possibilidade de uma espera tão longa, correu a um hospital público de Curitiba, cidade onde moravam. Apesar de o protocolo médico recomendar exatamente a conduta anterior, a segunda médica comandou por conta própria uma ecografia, após o seu plantão, para avaliar a  situação. “Ela vestiu a camisa do ser humano”, sintetiza.

A ecografia e outros exames posteriores demonstraram que a bebê sofria de uma diástole reversa e pesava menos do que deveria para a 21a. semana de gestação. Foi quando o casal recebeu a notícia que a filha não resistiria muito tempo após o nascimento

A tecnologia e os recursos não mudaram a  jornada de Laura, que seria homenageada pelo pai anos depois, batizando a solução criada para salvar vidas. Mas, nesse episódio, Jacson aprendeu que  bons médicos trabalham, principalmente, com sua sensibilidade no cuidado com os pacientes. Por isso, a tecnologia também precisa partir dessa premissa. “O médico precisa ser sensibilizado. Quanto mais a tecnologia humanizar o médico, mais eficiente ela será.”

 

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