Até o dia em que não perceberemos mais o “novo normal”
maio 21, 2020
O novo normal impôs o distanciamento social, mas aperfeiçoou o phygital - mundo com mais interação por meio da tecnologia.
A busca coletiva pelo novo normal vai gerar melhores práticas e experiências, e elas vão prevalecer.

Com a transformação de referências, hábitos e interações sociais, o mundo phygital é a nossa nova casa, com a tecnologia ganhando ainda mais importância

Luiz Adolfo Gruppi Afonso (LAGA)

Desde criança, a música me fascina. Como tantos outros adolescentes da minha época, eu queria ser músico profissional, tocar em banda, essas coisas todas que, na juventude, alimentam nossas boas fantasias. Minha mãe até me deixou virar músico, com a condição de que eu me formasse. Foi quando eu rumei para esse ‘negócio novo de computação’ que se falava tanto nos anos 1980. A música ficou em segundo plano, mas não a abandonei – toco bateria na minha banda até hoje.

Naquela época, o ambiente era muito diferente de hoje. O acesso à tecnologia era restrito a grandes empresas e a ‘microinformática’, como era chamada, começava a nascer no Brasil. Era muito defasada em relação ao que já existia no mundo. Até então, eu trabalhava como desenvolvedor e passava por diversos treinamentos. E logo que tivemos acesso ao computador pessoal, perguntamos: “o que faremos com essas novas máquinas?”

Ninguém fazia ideia do que aconteceria depois.

Em meados dos anos 1990, começamos a ter as aplicações práticas de internet e seus primeiros players, que surfaram com o crescimento da rede. Passamos de um momento em que era caríssimo ter um computador de porte e, poucos meses depois, com a abertura do mercado e o acesso à tecnologia, já estávamos vivendo uma verdadeira revolução – da qual a gente nem fala mais hoje, porque virou o normal.

Bem, eu já não sou mais um adolescente que sonha ser músico, ou um jovem adulto diante da novidade da revolução da internet. Depois de anos de carreira como CIO, sou presidente da Digibee no Brasil, que é uma experiência inédita para mim, lidando com um acontecimento jamais visto na nossa geração. E embora essas sejam fases de vida e acontecimentos com suas próprias características, a força da mudança provoca sentimentos parecidos. A dúvida paira na nossa cabeça: o que será o tal do “novo normal”? Como as coisas vão se restabelecer no pós-pandemia?

Mesmo que a gente não consiga responder essa pergunta com precisão, uma coisa é certa: a relevância da tecnologia aumentará. Assim como o lançamento do primeiro smartphone – o iPhone, em 2007 – marcou uma nova era. Ninguém poderia imaginar que um dispositivo quebraria tantos paradigmas e afetaria nosso comportamento de maneira tão profunda.

A área de TI sempre atraiu muitas pessoas e isso será primordial agora, porque a redução dos efeitos dessa reviravolta, em todos os aspectos, exigirá mão de obra capacitada. Isso porque a tecnologia serve, sem exagero, como salvação para as pessoas que passarão por dificuldades financeiras. Elas precisarão de ferramentas – internet, computador adequado, 4G – tanto para buscar um novo emprego, quanto para se capacitar. Esses recursos precisam chegar às comunidades que mais necessitam, sem representar um novo custo para a população. É dessa forma que os adolescentes conseguirão ter aulas remotas nesse período. Ou que as consultas médicas via videoconferências vão ajudar a sanar as dores e aflições dos cidadãos.

As nossas vidas digital e física estão se unindo. O coronavírus só obrigou os mais avessos à tecnologia a uma tendência inevitável: familiarizar-se com ela. Aceitá-la. Colocá-la a favor do próprio bem-estar e da continuidade das coisas. Afinal, é vida que segue.

O “novo normal” nos leva também a uma forma diferente de trabalho, que inclui, felizmente, uma relação colaborador-empresa mais transparente. Até o início da pandemia, muitos empresários não acreditavam e não gostavam do home office, que agora se tornou uma unanimidade. Ele pode, sim, tornar o trabalho mais eficaz e evitar que você perca horas inúteis com deslocamentos físicos até a empresa. Os hábitos de consumo também já não são os mesmos – muitas empresas perceberam que a presença física em vários bairros da cidade talvez não seja a melhor decisão.

Se alguém ainda não olhou para essas possibilidades, é fundamental que faça isso agora. Com a transformação de referências, hábitos e interações sociais, o mundo phygital é a nossa nova casa. Afinal, não dá para abandonar nem o físico, nem o virtual.

A TI serve para dar conta das mudanças e transições que são consequências de uma crise como essa. É uma alavanca para o negócio e, por isso, sempre foi tão atraente para mim e me desviou do caminho da música profissional. Mas ela não dará conta de toda essa revolução sozinha. No fim do dia, você quer deitar a cabeça no travesseiro e ficar em paz. Quer a família, os abraços, o contato físico, mesmo que seja reduzido por causa dos cuidados com a pandemia.

Por isso, enquanto a gente se ajuda e colabora, a busca coletiva pelo novo normal vai gerar melhores práticas e experiências, e elas vão prevalecer. Esse modelo vai permitir o uso do nosso tempo com mais qualidade, em todas as esferas. E, o mais importante, talvez nos ajude a dar mais valor às relações de qualquer natureza.

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