Cautela com a pandemia, otimismo com a demanda: a visão de Antonio Carlos Pina, CTO da Quod
17 de dezembro de 2020
Após anos difícil, demanda reprimida por conta da pandemia de Covid-19 pode gerar grandes oportunidades de crescimento.
"O momento é interessante. Há um fenômeno de win-win ocorrendo, que é bom para todo mundo."

O primeiro entrevistado da série Especial Perspectivas 2021 tem ressalvas em relação ao próximo ano, mas vê uma demanda reprimida que pode gerar grandes oportunidades de crescimento.

Antônio Carlos Pina tem um “pé atrás” em relação a 2021* – e nem poderia ser diferente. A pandemia continua afetando profundamente o Brasil e o mundo e, apesar dos avanços nas pesquisas de vacinas, seria ingênuo determinar quando os efeitos da crise do coronavírus deixarão de ser sentidos.  De todo o modo, é com um pé atrás, mesmo, que teremos que correr.

Ao mesmo tempo em que nunca foi tão desafiador prever riscos em um plano de negócios,  as oportunidades são claras – e elas vêm de todos os lados. A demanda reprimida, de um povo cansado da eterna quarentena, é uma delas. Transformações do setor financeiro, como Pix e open banking, também renovam expectativas sobre novas formas de consumo. No pano de fundo – ou puxando essas mudanças – estão as profundas transformações sociais verificadas em 2020 no que tange à igualdade de gênero e combate à homofobia e ao racismo.

Do retorno das operadoras como heroínas ao potencial de ganha-ganha no segmento financeiro, Pina abordou, em papo exclusivo com o blog da Digibee, os desafios e oportunidades que consegue enxergar para 2021.

Veja os destaques do papo na sequência:

Antonio Carlos Pina é CTO da Quod, empresa gestora de bases de dados criada a partir da união dos cinco maiores bancos do País.  Especializada em análise de crédito e recentemente escolhida como fornecedora de soluções antifraude para o Pix, recém-implantado pelo Banco Central, a Quod também atua nas áreas de telecomunicações e no varejo.

Mercado: da queda na pandemia à explosão da demanda na abertura

“O Brasil entrou em 2020 numa situação econômica que, se não era maravilhosa, estava em recuperação, após a realização de reformas importantes, como a trabalhista e a da Previdência. Mas aí veio a pandemia. Alguns negócios tiveram uma grande queda – todos aqueles que dependiam da presença humana, como empresas aéreas, organizadores de eventos, entre outros. E teve os que explodiram: e-commerce, delivery, todo esse mundo digital.

Agora, haverá uma explosão da demanda. Quando você abre a porta para quem está trancado em casa, essa pessoa vai querer consumir. Pense nas viagens: assim que a coisa estiver um pouco mais controlada, as pessoas vão viajar muito.

Então, há um pezinho atrás, porque a pandemia não acabou e há incerteza sobre como será a vacinação no próximo ano. Mas temos que dar as caras no mercado, porque há um processo em ebulição. Acho que esse discurso é um pouco consenso: no geral, as pessoas acham que em 2021 a gente embicará de novo, seguindo o caminho natural do que aconteceria em um cenário mais normal de 2020 – mas potencializado por essa demanda retida.”

Setor financeiro: um cenário de win-win

“O momento é interessante. Há um fenômeno de win-win ocorrendo, que é bom para todo mundo. As fintechs – desde as pequenininhas até empresas gigantes como Mercado Livre, BTG Pactual e PagSeguro – estão crescendo ao assumir serviços que originalmente pertenciam aos grandes bancos. E isso é bom para o consumidor, que tem à disposição mais ofertas e serviços.

Para o grande banco, também não é ruim, porque você tem um crescimento do número de consumidores – o aumento da bancarização – e, além disso, você diminui automaticamente o nível de obrigações dos bancos. Antes, eles tinham que manter um certo dinheiro em caixa, um número de agências operando, mas aí chegam novos players que trabalham sem agência e, dessa forma, os bancos também podem operar dessa maneira.

O mercado financeiro está em crescimento. O Pix vai abrir oportunidades que a gente ainda nem imagina. Ele foi primeiramente elaborado para substituir a TED, e depois agregou o pagamento via QR Code… aos poucos, ele se tornou uma alternativa ao boleto. Você coloca a tecnologia como uma construção de tijolo em tijolo e, no fim, a obra sai completamente diferente do imaginado.”

A volta por cima das telecoms – e o esperado renascimento dos shoppings

“Além do setor financeiro, a Quod também opera fortemente em telecomunicações e varejo, que também estão em crescimento. No caso do primeiro, isso é evidente: a internet é mais vital do que nunca e as empresas que fornecem internet de fibra ótica, também. Há até o projeto do Elon Musk de lançar satélites para oferecer internet, que é mais uma das iniciativas que tendem a tornar o mundo mais conectado.

E as telecoms, que eram olhadas como um patinho feio – ‘ninguém mais usa o telefone, o WhatsApp matou’ –, viraram heroínas. O mundo dá voltas…

No varejo, as lojas físicas apanharam muito e ainda apanham, com toda a restrição de funcionamento. Há uma competição grande do online e dos grandes players como Magazine Luiza, Amazon, Via Varejo. Mas, aqui no Brasil, o shopping é uma opção de lazer ampla. A pessoa vai ao shopping, assiste a um filme, come num restaurante, tem opção de lazer para os filhos e, claro, faz suas compras. Isso tudo num ambiente onde ela tem segurança. Assim que as pessoas puderem sair de casa, esse setor verá uma recuperação importante.”

TI: empresas continuarão aprendendo a transformar dado em negócio

“A pandemia não foi muito difícil para as startups e outras empresas que já trabalhavam com a crista da onda da tecnologia: clouds, microsserviços, machine learning e até modelos como o home office. Mas o isolamento social iniciou processos nas instituições que ainda estavam para trás nesse processo. Indústrias muito tradicionais, como os próprios bancos, achavam que nunca poderiam trabalhar de casa. ‘Não é seguro como meu mainframe’, diziam. Essa galera precisou mudar rápido. E a TI verá uma aceleração na tomada de decisões importantes como, por exemplo, a separação sobre o que deve ficar na nuvem e o que deve ficar no datacenter.

Além disso, temos um crescimento contínuo da segurança da informação, com as pessoas trabalhando cada vez mais de casa. Teremos mais conectividade, VPNs melhores, ambientes de trabalho em mobile e, por fim, a tendência do uso dos dados. Dizem que o dado é o novo petróleo, mas nem todos sabem transformar petróleo em gasolina. As empresas vão tentar fazer isso cada vez mais. Para isso, utilizarão tecnologias como machine learning, analytics, deep learning etc. Porque, nesse processo de digitalização forçada, as empresas viram que têm um monte de informação cadastral que é possível usar.

Acho que haverá uma explosão de cargos para áreas como segurança da informação, dados e os devops que trabalham com arquitetura de nuvem. Há uma tendência de um modelo de gestão cada vez mais horizontal. Os silos das empresas trazem muita dificuldade – você precisa subir uma informação para o chefe da sua área falar com o chefe da outra área, e aí a informação desce. Esse modelo horizontal fomenta velocidade, assim como os processos ágeis, que ficarão mais em evidência.”

Tecnologia dita o que pode ser feito – e como pode ser feito

“Há 30 anos, a tecnologia era vista como um acessório que respondia à área de custos e cuidava, basicamente, de automação de tarefas. Com o advento da internet e, depois, das redes sociais, a tecnologia passou a ser uma parte vital de todas as organizações.

Se eu vendo hambúrguer, eu preciso de um ponto de venda, um site, uma integração com os apps de delivery, propagandas na mídia social… a tecnologia foi, aos poucos, adentrando as empresas.

Se você observar, a transformação digital deu origem a serviços – e-commerce e bancos digitais, por exemplo – que são apenas plataformas tecnológicas. Pensa no Mercado Livre: ele sempre foi uma plataforma que vende produtos. O desenvolvimento da plataforma passou a acompanhar o desenvolvimento de uma nova empresa. Assim, a tecnologia está grudada na estratégia das empresas, ditando o que pode ser feito, no tempo necessário, com o custo que dá.

A digitalização muda tudo muito rápido. Você precisa encurtar o ciclo de desenvolvimento: se você tem uma boa ideia, coloca no ar agora, e quem vai dizer se é boa ou não é o cliente. A partir do feedback dele, você solta uma nova versão. Quem ainda acha que a TI não tem que estar junto da estratégia precisa rever os seus conceitos ou não vai chegar longe nesse mundo que a gente vive. Tem gente que já abraçou essa realidade e está 1.000 quilômetros à frente.”

Um mundo mais aberto para discutir seus problemas

“Em 2020, o mundo começou a abrir ainda mais essas caixinhas dos problemas sociais, e vejo isso com bons olhos. Vimos escândalos de assédio em empresas, onde o ambiente era fechado, e as pessoas saíram para denunciar. E vemos alguns movimentos tímidos de reposicionamento. Recentemente, a Globo contratou sua primeira narradora de futebol. Isso pode parecer uma coisa menor, mas não é. É muito grande para as mulheres colocarem um pé num ambiente que sempre foi masculino.

Acho que a pandemia pode ter contribuído para esse ambiente de questionamento porque as pessoas tiveram mais atividades online e se sentiram empoderadas para dar opinião. Quando isso acontece dentro de uma empresa e a solicitação não for atendida, pode virar uma crítica pública.

Quando você encara a pessoa como ser humano, com sua história e vivência, em vez de olhar para o gênero, cor da pele e orientação sexual, você vê que ela tem uma história de vida. Parece algo meio grandioso de dizer, mas isso faz parte da evolução da humanidade.

É uma briga longa, que não é de curto prazo. Mas a tendência é que as empresas comecem a mapear essas questões e entendê-las. Ou você educa ou você, de alguma forma, anula esse preconceito por meio de ações afirmativas, como reserva de vagas.

As pessoas vão ter que mudar, porque o mundo tem que mudar. Cabe a nós combatermos os desvios e melhorarmos cada vez mais como sociedade.”

*Esta reportagem faz parte do Especial Perspectivas 2021. Acompanhe os próximos!

 

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