Diário de bordo: escalando no Brasil, descobrindo o mundo
6 de janeiro de 2021
"A Digibee está em uma fase de crescimento no mercado nacional, ao mesmo tempo em que começamos a consolidar nossa operação nos Estados Unidos. Na América do Norte, no entanto, o momento ainda é de compreensão do mercado" - Rodrigo Bernardinelli

Alguém está sentado sob uma sombra hoje porque alguém plantou uma árvore há muito tempo –

Warren Buffett

 

Há cerca de três anos eu tinha uma convicção. Convicção, essa, compartilhada com mais dois desajuizados. Conheço o Peter Kreslins e o Vitor Sousa, meus sócios, há uns bons muitos anos. Ouvir minhas certezas ressoando pela voz de pessoas que eu tanto confiava me imbuia da firmeza necessária para, a cada dia 30, colocar a mão no bolso e tirar a quantia necessária para pagar os funcionários. “Sim, vai dar certo”, repetia a mim mesmo.

Deu. Está dando.

“Dar certo” no universo das startups não significa, porém, que é hora de sentar e relaxar. Além do revés generalizado vivido pelas empresas de todo o planeta em 2020 – não vou nem gastar muito mais do seu tempo escrevendo sobre a pandemia, porque você também a viveu na pele – temos os desafios particulares de empresas em fase de crescimento. Neste ano, o plano da Digibee era claro: escalar.  Isso significa levar nossa solução ao maior número possível de clientes, tarefa que exige planejamento estratégico e traz consigo suas próprias dores – basicamente descentralizar poder e decisão das mãos dos sócios e criar processos que garantam que a companhia caminhe com suas próprias pernas. 

Está dando certo.

A Digibee está caminhando com suas próprias pernas no Brasil. Nós, os sócios, enfrentamos aquela difícil tarefa pela qual todo o pai passa: a de deixar o filho pequeno, que parece indefeso, colocar uma perninha na frente da outra e seguir o rumo que você traçou, mas que ele deve seguir. Os músculos bambeiam nos primeiros movimentos, mas logo ficam fortes e seguros, impressionando tanto aquele que anda quanto o outro, que observa. Assim que o pequeno chega ao ponto desejado, ambos explodem de alegria pela conquista. E o pai fica satisfeito por não ter se intrometido. Os caminhos, a partir desse momento, são de seu filho.

Agora, eu – um dos ditos pais experientes – estou aprendendo a engatinhar. Enquanto o Brasil escala, tenho a missão de fincar as bases de uma outra startup, a Digibee Inc. É hora de desbravar os Estados Unidos. É uma nova fase de descoberta e entendimento. 

Estou morando na Flórida desde o segundo semestre. Já planejávamos a minha mudança para cá para o começo do ano, mas a pandemia acabou atrasando o projeto em alguns meses. Enquanto isso, toquei a operação a distância, com apoio do time local. Desde que cheguei, estamos testando e experimentando muitas coisas, tateando o mercado e conquistando os primeiros clientes. 

É claro que trazemos muitas coisas da nossa experiência no Brasil, e os caminhos se mostram mais claros do que quando começamos, lá em 2017. Também estamos escorados em uma solução consolidada e escalável, que traz  cases que mostram o quanto ela é eficiente.

Só que o processo aqui é muito diferente. Porque eu, o Vitor e o Peter tínhamos uma experiência de vida, e de carreira, quando fundamos a Digibee no Brasil. Sabíamos como funcionava o mercado, quem eram os clientes, e os aspectos da cultura brasileira. Além, obviamente, de nos comunicarmos em nossa língua nativa.

Nos Estados Unidos, meu conhecimento é teórico. Preciso entender melhor como são as empresas, os modelos de negócios, e como funciona a cabeça do empresário norte-americano quando ele toma uma decisão. São coisas particulares e culturais, e seria muita arrogância dizer que, por eu saber como é ser empreendedor no Brasil, também domino a técnica nos Estados Unidos. Não. Posso até saber andar com minhas próprias pernas, mas o solo aqui é outro – e ele dita o caminho tanto quanto minha própria visão. Por isso é essencial encontrar amparo nessa caminhada em um time que tenha esse know-how e complemente com os conhecimentos necessários.

Quando falamos do segmento financeiro no Brasil, nós sabemos quem são as principais instituições e que os grandes bancos vendem todos os produtos e serviços: você tem ali sua conta corrente, um consórcio e um seguro. Nos Estados Unidos, a dinâmica é outra: um banco atende sua conta corrente e o outro, os seus investimentos O setor de saúde, onde também atuamos, é outro exemplo. Os Estados Unidos têm um sistema totalmente diferente do brasileiro. Não dá para empacotar a abordagem daí e esperar que ela dê certo por aqui. 

Quando falamos do macro – a forma de vender –, as coisas não são tão diferentes. Você faz o marketing do produto, prospecta, vende, realiza o onboard da solução e garante que ela seja bem-sucedida para o cliente. Mas o que está abaixo de cada pilar tem suas nuances, e elas precisam ser trabalhadas de acordo com o perfil, a geografia e a cultura norte-americana.

Além de todos esses obstáculos corporativos, há também o meu próprio, pessoal. Por mais que seja habituado ao país – nos últimos 20 anos, eu devo ter vindo aqui umas 100 vezes, pelo menos, a trabalho –, chegar aqui com a família e me estabelecer é outra conversa. É uma mudança de estilo de vida, para a qual a gente também precisa se adaptar.

No fim das contas, não importa se o nosso momento é diferente no Brasil ou nos Estados Unidos, porque ambos os cenários fazem parte de uma mesma missão: levar a solução ao maior número possível de clientes e ajudá-los a terem sucesso. Minha perspectiva, para 2021, é mais do que um objetivo profissional, é uma grande meta de vida. E há mais de cem vozes, hoje, ecoando no Brasil as minhas convicções. E elas me imbuem da firmeza necessária para dar o próximo passo.

Vai dar certo. Está dando certo. 

 

*Este foi o último conteúdo do Especial Perspectivas 2021. Leia os anteriores: 

Cautela com a pandemia, otimismo com a demanda: a visão de Antonio Carlos Pina, CTO da Quod

O ano da assertividade e das plataformas digitais: a perspectiva de Tiago Damasceno Felipe, do Grupo Leforte

Um pouco de “bola de cristal” e muita tecnologia: o olhar de Domingos Bruno, da Arcos Dourados

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