Lock-in: prenda-se se for capaz

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essense, 04/09/2020

Segundo Paulo Veras, fundador da 99, as empresas não precisam mais ficar presas a sistemas complexos e ultrapassados por, no passado, terem investido alto neles

Digibee

Paulo Veras, cofundador da 99 e um dos responsáveis por transformar o aplicativo de mobilidade no primeiro unicórnio brasileiro, lembra-se muito bem dos tempos em que os projetos de tecnologia consumiam meses — até anos — e exigiam um investimento gigantesco. Assim como as geladeiras no passado, os sistemas e arquiteturas eram feitos para durar uma vida inteira.

Mas o mundo muda e numa velocidade alucinante: as novidades surgem em profusão e a ideia de ter uma tecnologia quase perene e definitiva virou não somente uma utopia, mas resultou em arquiteturas monolíticas, complexas e acopladas, em que uma simples substituição de peças pode causar a ruína do sistema. A troca de dados e informações dessas arquiteturas com outras aplicações é  um baita desafio.

Essas arquiteturas se transformaram em um legado inevitável que pode trazer desvantagem competitiva em relação às empresas com infraestrutura mais flexível… De repente, o grande investimento num sistema “moderno e exclusivo” se transforma numa verdadeira “amarra” ao progresso e à produtividade. Esse é o contexto clássico do chamado lock-in: aprisionamento tecnológico. 

“Hoje, a análise sobre a tecnologia tem de ser contínua. Você não toma uma decisão que vai lhe amarrar pelos próximos cinco ou dez anos. Você se acostuma a rever essas ferramentas constantemente e se abre para testar novas plataformas”, diz Veras, cuja relação com a tecnologia e a programação remontam a sua adolescência, sua formação em Engenharia Mecatrônica pela USP e ajudam a explicar por que, além de fundador da 99, atualmente, é um dos investidores da Digibee. 

O lock-in é fruto, quase sempre, de dois motivos: a incapacidade de acompanhar e assimilar a evolução tecnológica ou a dependência de soluções que não conversam com outras plataformas. Há ainda um terceiro fator que permeia essas razões: o medo do novo e das formas “inéditas” de aprisionamento que ele pode trazer consigo.

Os agnósticos à cloud

Lidar com um legado de décadas de atuação carrega suas próprias complexidades, mas abrir-se a uma tecnologia dentro de um segmento com potencial de futuro bilionário também é complexo. São escolhas distintas, mas igualmente decisivas. 

Vitor Sousa, sócio-fundador e COO da Digibee, vê a tendência, em algumas empresas, de considerar a cloud um novo instrumento de lock-in. “Há esse discurso do tipo ‘sou agnóstico à cloud, não quero ter um lock-in com a Amazon ou com o Google’. Mas, para fazer isso, ele tem que construir uma série de tecnologias que acabam causando um lock-in interno, aumentando em proporções astronômicas os custos da empresa”, diz Vitor. 

Paulo Veras se lembra de quando, na 99, passaram a usar a nuvem da Amazon Web Services para abrigar sua aplicação. Ao perceber o cardápio de funcionalidades da plataforma, os olhos da equipe cresceram: sistemas robustos de envio de mensagens, notificações, gestão de dados, backup… estava tudo disponível, sem que a equipe interna precisasse se preocupar.

A única questão levantada era: “Se decidíssemos mudar de nuvem, a migração seria complicada?”. Sim, seria.  “Mas nossa alternativa, à Amazon, seria desenvolver um sistema internamente, para o que teríamos de deslocar parte da nossa inteligência”, conta. A escolha não foi difícil. “Se, no futuro, decidíssemos migrar para outra cloud, teríamos que reescrever essas funcionalidades, é verdade. Mas, se não optássemos por ela, teríamos de escrevê-las naquele exato momento. Decidimos ganhar tempo, velocidade e robustez e deixar nossa equipe focada no  nosso core: o despacho de táxi.”

Em resumo, se é para depender momentaneamente de uma solução boa que complemente o seu negócio, que assim seja. “Uma boa plataforma permite à empresa se dedicar ao seu core business e avançar sem se preocupar com lock-in.”

O fim do mindset do lock-in

Os dois executivos concordam que a escolha por arquiteturas mais flexíveis e microsserviços representam, na verdade, uma mudança de mentalidade das empresas e é essa quebra de paradigma que irá evitar o lock-in.

Vitor, da Digibee, defende que o caminho para as empresas não serem aprisionadas por uma tecnologia é o da busca por arquiteturas flexíveis, capazes de atender ao negócio sem necessariamente obrigá-los a “destruir” seus legados. 

“A partir do momento que você coloca as novas aplicações, não estamos mais falando de lock-in e, sim, sobre qual ferramenta lhe dá o melhor custo-benefício”.  A arquitetura tecnológica da empresa deve, portanto, ser capaz de garantir que o dado core, o mais importante para o negócio, seja movimentado sem barreiras nem prejuízos à sua integridade, por diferentes ambientes. Nesse cenário, adverte, utilizar uma plataforma especializada é mais barato e rápido do que alocar recursos para construir suas próprias soluções.

Como a principal característica do lock-in é a complexidade dos sistemas, é importante escolher sistemas mais simples e flexíveis e planejar um ciclo de desenvolvimento que leve em conta a evolução tecnológica. Soluções em nuvem, além de não serem definitivas, passam por constantes melhorias. 

“Quanto mais peças o sistema tiver e menos padronizado for, maior a amarra em relação à aplicação ou à tecnologia. Ao colocar uma nova arquitetura sobre o sistema, dispondo, assim, de peças mais especializadas e adequadas à necessidade do negócio, melhora-se o time to market, a experiência do usuário e a experiência do cliente”, diz Vitor.  

Segundo os dois executivos, as empresas precisam deixar definitivamente para trás o medo – e o mindset – de cair no lock-in e priorizar o uso das melhores tecnologias disponíveis que irão resolver o seu problema naquele momento. “Quebrar o lock-in arquitetural é a prioridade das empresas”, reforça Vitor. “Elas precisam criar uma arquitetura de integração para romper essa lógica e criar uma ‘avenida de dados’ entre os diversos sistemas e ambientes.”

Para Paulo Veras, o tempo e o dinheiro que se gastava para implementar um projeto interno de tecnologia simplesmente não são viáveis hoje. “Você não pode ter uma plataforma, hoje, que não se conecte com outros serviços. Quem não conseguir fazer uma ponte com o futuro, vai perder mercado.”

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