O ano da assertividade e das plataformas digitais: a visão de Tiago Damasceno Felipe, do Grupo Leforte
dezembro 22, 2020
Com a consolidação cada vez maior do home office, privacidade e segurança da infromação são questões devem evoluir.
"Em 2020, o home office deixou de ser tendência e virou realidade. Agora, há uma série de questões de segurança da informação e de privacidade de dados que podem evoluir."

De acordo com o segundo entrevistado da série Especial Perspectivas 2021*, o próximo ano é imprevisível e exige que as empresas agilizem o uso de ferramentas de BI e das plataformas de comunicação com os clientes – e não cometam erros na hora de investir

O corriqueiro “de-lá-pra-cá” pelos corredores do Grupo Leforte de hospitais e clínicas ganhou novos significados para Tiago Damasceno Felipe ao longo de 2020. No primeiro trimestre do ano, o então superintendente de TI combinava sua rotina de trabalho diária com a presença em eventos setoriais e em entrevistas, cumprindo a atribulada agenda de quem escolheu ser um dos principais incentivadores da transformação digital da Saúde no Brasil. Então, o coronavírus bateu à porta do Brasil – e dos hospitais do grupo. “A pandemia não só impactou o atendimento ao paciente; ela também trouxe um alerta de que essa transformação [digital] precisa ser rápida”

A pandemia não acabou, sabemos. E nem os novos desafios de Tiago. No segundo semestre, foi convocado para assumir a direção administrativa e operacional de uma das unidades do grupo. “Ajudou muito o fato de ser de TI e conhecer os meandros da logística, assistência, faturamento e todas as áreas que permeiam o hospital. Você ganha uma visão sistêmica importante e isso vira um diferencial.”

É sob esse olhar, que une conhecimentos de TI e negócios, que Tiago mira 2021. Para ele, será um ano em que as empresas de todos os segmentos terão que ser assertivas na hora de preparar e direcionar seus investimentos. E o auxílio de ferramentas como analytics e BI, além das plataformas digitais, será fundamental para entender quais são as demandas dos clientes – no caso dele, dos pacientes –, de modo que seja possível aperfeiçoar e agilizar a tomada de decisão. Integração, explica, nunca foi tão importante.

Acompanhe os principais trechos do papo que Tiago bateu, com exclusividade, com o time editorial da Digibee para o Especial Perspectivas 2021*.

O ano da incerteza – e da assertividade

“2021 será mais um ano atípico em termos de planejamento e investimento. O ambiente incerto da sociedade afeta a questão econômica do país e das empresas. Será um ano em que a assertividade e as mudanças de cenário vão caminhar lado a lado. Essa assertividade é fundamental para as empresas investirem de forma certeira, de acordo com seu perfil. E, novamente, teremos esse processo de adaptabilidade semelhante ao de 2020, com a continuidade do distanciamento social e com os desdobramentos de uma eventual campanha de vacinação.  Em termos de gestão, metodologias que utilizávamos mudaram completamente, porque não eram aderentes ao desafio atual. Há um planejamento orçamentário muito voltado à continuidade dos negócios. Quando falamos sobre investimento em inovação, 2021 é um ano em que o planejamento demanda análise de retorno sobre o  investimento muito bem definida. E esse planejamento passará por uma revisão muito mais frequente do que o normal. Em resumo: é importante analisarmos as possibilidades de inovação tecnológica e as tendências, mas a exigência maior de 2021 para as empresas é de um nível de assertividade e um orçamento realmente direcionado.”

Analytics e BI serão fundamentais para tomada de decisão com inteligência 

“Em 2020, o home office deixou de ser tendência e virou realidade. Agora, há uma série de questões de segurança da informação e de privacidade de dados que podem evoluir. E também há a missão de criar mecanismos para melhorar a produtividade do colaborador e também ajudá-lo a ter uma qualidade de vida melhor no home office.  Ferramentas que possibilitam a análise e a projeção de dados serão fundamentais, porque as tomadas de decisão terão que ser rápidas, sempre considerando as mudanças de cenário. No segmento de saúde, por exemplo, as equipes têm que estar preparadas ora para um possível repique de covid-19, ora para um eventual crescimento de pacientes com outras enfermidades. Para a tomada de decisão com inteligência, as plataformas de analytics, de business intelligence e de inteligência artificial são boas apostas. Uma grande tendência é a utilização das várias frentes de analytics para a tomada de decisão de maneira prática. Essas plataformas de dados têm informações importantes sobre os  clientes, e é preciso utilizá-las para entender o perfil, desejos e necessidades. A automação e a digitalização serão fundamentais no aumento da produtividade, deixando para trás os processos repetitivos que dependiam de papel, carimbos e assinaturas. Nesse ponto, o que pode ajudar são as plataformas de workflow eletrônico, de RPA.

Como é um ano complicado em termos de projeções, esse investimento terá que ser bem direcionado – e a área de tecnologia estará junto com a área de negócios para trazer inovações que realmente resolvam o problema.”

A lenta evolução do segmento de saúde 

“Antes da pandemia, o processo de transformação digital na saúde era lento e não democrático, restrito aos grandes players e centros do país. Além disso, a forte regularização do setor chegou a atrapalhar a adesão tecnológica e contribuiu para que ele não evoluísse.

A telemedicina é um exemplo. Ferramentas de videoconferência estão disponíveis há anos, mas nunca fizeram parte da formação do profissional que vai prestar a assistência. Ela poderia auxiliar o trabalho de salvar vidas há muito tempo, mas, por questões de regulamentação,  não podia ser usada. Aliás, o nosso setor sempre aderiu à tecnologia médica – inovações em aparelhos médicos, esse tipo –, mas não à tecnologia voltada à relação com os clientes.

O segmento bancário, por exemplo, saiu do cheque de papel para o caixa eletrônico, e depois para o internet banking, para os apps… no caso da saúde, essa transformação levou muito tempo. E ela não é democrática quando analisamos, por exemplo, a sua evolução em hospitais públicos e privados.

Há uma necessidade de transformação que envolve integração de dados e a inclusão, de fato, da instituição no mundo digital. Vai muito além da digitalização de processos. A pandemia não só impactou o atendimento ao paciente; ela também trouxe um alerta de que essa transformação precisa ser rápida.”

Como a saúde pode acelerar em 2021

“Acredito que a grande chave é a comunicação com os clientes através das plataformas digitais. Antes da pandemia, muitos hospitais ainda não tinham prontuário eletrônico ou estavam em processo de adesão. Da noite para o dia, precisaram desenvolver um app para agendar consultas e exames; criar um site; desenvolver um canal nas mídias sociais para falar com os pacientes. Difundir a interação digital nos hospitais, para todos os níveis de complexidade e de tamanho de organização, será um ponto-chave. Nós vemos perfis diferentes de consumidor, mas a adesão aos mecanismos digitais é cada vez maior. O smartphone é, hoje, o principal ponto de contato. A tecnologia estará ainda mais perto do negócio e os fornecedores precisarão apostar em soluções que o mercado necessita naquela hora – diferentemente de outros momentos, de economia mais aquecida, onde eles poderiam ofertar algumas soluções e nós avaliávamos se elas eram cabíveis ou não. Hoje, o fornecedor tem que estar muito próximo para entender o que é um diferencial competitivo para aquele mercado e ter uma oferta de valor de serviços e produtos que atendam aos clientes.”

A transição da TI para a gestão hospitalar

“Para mim, essa transição da TI para a gestão hospitalar é desafiadora e gratificante. O fato de estar na área de saúde há quase 16 anos facilitou o conhecimento de todos os processos hospitalares. Ajudou muito o fato de ser de TI e conhecer os meandros da logística, assistência, faturamento e todas as áreas que permeiam o hospital. Você ganha uma visão sistêmica importante e isso vira um diferencial. Ao mesmo tempo, você vê as deficiências da não adesão ou do não incremento da tecnologia em áreas que exigem muita demanda administrativa. Se a enfermeira precisa assistir o paciente no meio de uma demanda alta pelos serviços de saúde, eu preciso criar mecanismos para ela fazer isso à beira do leito e não tenha que interagir tanto com a tecnologia em detrimento da assistência. Por isso que os workflows de tomada de decisão são tão importantes. Quem é de tecnologia e vai para a gestão pode enxergar muitas oportunidades de eliminar questões burocráticas e repetitivas e entregar mais tempo para uma experiência melhor do paciente. ”

Fora da bolha: o posicionamento sobre questões sociais

“Há um atraso bem grande na sociedade na discussão de assuntos como diversidade e inclusão nas empresas. E essas questões têm que estar ligadas aos valores das empresas, a uma cultura organizacional, a um processo de transformação que caminha junto com a sociedade. As empresas não estão numa bolha, e a sociedade começa a olhar para questões como o racismo, por exemplo. Recentemente, um jogo de futebol da Champions League, na Europa, foi interrompido após um caso de racismo. Os jogadores dos dois times saíram de campo dizendo que a partida não continuaria enquanto houvesse esse tipo de atitude. Isso é um posicionamento coletivo. A sociedade discute isso de forma cada vez mais rígida, e as empresas precisam se preocupar em criar uma cultura organizacional que reforce a valorização do ser humano, o respeito e a diversidade. Isso será cada vez mais latente, e as áreas de gestão e pessoas serão fundamentais.  Estar no segmento da saúde é interessante e positivo nesse sentido, porque o cuidado não vê diferença. Não importa a origem de uma pessoa ou sua faixa etária, sua classe social; se ela precisa de um cuidado de saúde, ela vai receber o mesmo tipo de atendimento. A luta pela vida é a mesma. Esse mesmo valor precisa ser transmitido para as empresas, que fazem parte desse ecossistema e vão evoluir nesse debate junto com a sociedade.”

*Esta reportagem faz parte do Especial Perspectivas 2021. Acompanhe as próximas!

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