Pioneirismo, empreendedorismo e tecnologias disruptivas: a trajetória de Carlos Leite, CTO do St. Marche

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essense, 09/10/2020

Ele idealizou soluções de pagamento móvel antes dos smartphones e de telemedicina antes da pandemia; hoje, seu trabalho é antecipar as necessidades que os clientes de e-commerce terão no futuro

Digibee

O ano era 2003. Carlos Leite, um estudante da faculdade de Ciências da Computação da Universidade São Paulo (USP), já era frequentador assíduo dos laboratórios de programação e entusiasta do desenvolvimento ágil. Ao lado de dois colegas de faculdade, que prestavam consultoria sobre desenvolvimento ágil, ajudou a desenvolver uma solução que transformava o telefone celular em um meio de pagamento.

Naquela época, não havia smartphones – o primeiro iPhone seria lançado quatro anos depois – e o uso de telefone celular se resumia, basicamente, a fazer ligações e enviar mensagens SMS (além, é claro, dos jogos da cobrinha e outros games simples que serviam para passar o tempo).

Foi ali que ele descobriu sua paixão pelo empreendedorismo. A solução, aos poucos, se transformou em produto e foi vendida para a Oi em 2007. “Custou R$ 75 milhões. Eu lembro bem desse número porque as pessoas acham que a gente empreende um negócio desses e fica rico. Mas, na verdade, eu ganhei meu dinheiro e continuei trabalhando um monte”, recorda.

Era uma solução de wallet completa, que permitia o pagamento de contas em estabelecimentos usando apenas o SMS do telefone celular. Batizado de Oi Paggo, ele sobreviveu por alguns anos no catálogo da operadora. Enquanto isso, Leite e seus sócios continuaram trabalhando com soluções semelhantes e chegaram a implementar um produto equivalente na Nigéria.

Após o sucesso absoluto do primeiro produto, vendido para uma grande operadora de telecom, os sócios acabaram perdendo um pouco o “chão da realidade”, segundo ele, e pararam de se concentrar no produto e nos clientes. “A gente só queria fazer palestra nos Estados Unidos, no Google. Quebramos a cara estrategicamente”, lembra.

Ele também percebeu, com o tempo, que pensava diferente dos outros sócios, o que o levou para novos desafios. “Eu queria trabalhar com novas tecnologias, com cloud, e via que estávamos presos naquele mundo do datacenter, do servidor físico.”

Telemedicina antes da hora

A veia empreendedora e o olhar para a inovação continuariam guiando Leite por sua carreira. “Eu nunca fiquei numa zona de conforto”, diz. “Sempre gostei e topei os novos desafios.” E não é frase de efeito; a trajetória de Leite mostra onde essa inquietação o levou.

Seu desafio logo após trabalhar com as soluções de pagamento, por exemplo, em 2012, foi um projeto de uma plataforma online que buscava fazer a comunicação entre médicos e pacientes com o nome de medicinia.com.br.

Houve muitos obstáculos, principalmente no começo, quando o serviço era destinado ao cliente final – o paciente. Agências reguladoras e entidades do setor recomendaram aos médicos que não usassem a solução, sob a justificativa de que se tratava de telemedicina, uma forma ilegal de atendimento à época.

Hoje, ao ver o quanto a telemedicina se tornou essencial na vida dos brasileiros e da população de todo o mundo por causa da pandemia do coronavírus, Leite brinca e diz que o “timing ainda não era o ideal” em 2013. Assim como os meios de pagamento móveis, que estão revolucionando as transações comerciais atualmente, a solução estava à frente de seu tempo.

Mas a plataforma foi adaptada e encontrou seu nicho no b2b, atraindo hospitais e clínicas como clientes, em uma solução pautada em inteligência para fluxos operacionais, tornando mais eficiente a comunicação com o paciente. Ela está no ar até hoje, mas Leite não está mais lá. “Quando o projeto começou a rodar por si só, percebi que era hora de ir para outra startup”, conta.

Superando a própria resistência

“Sociedade é um casamento e por aí começa o desafio de empreender: escolher o sócio.” Para Leite, a criação de uma nova startup significou, na maior parte das vezes, a associação com parceiros que ele havia conhecido em empreitadas anteriores e, acima de tudo, a construção de times fantásticos, afinal as pessoas são essenciais nessa jornada.

Foi assim após o Medicinia, quando ele partiu para a Skore, uma startup de Edtech, que trabalhava com a gestão de conhecimento, treinamento corporativo, onboarding de funcionários e otimização de equipes de vendas. Foi outro projeto que angariou grandes clientes e que continua até hoje.

Mas Leite ainda precisava conhecer outros ambientes. Encontrou um amigo: Alexandre Stuber, a quem havia conhecido nos tempos do Medicinia. Ele soube que Stuber estava trabalhando em uma solução de e-commerce chamada Mercado Fresh.

A startup já havia recebido investimento, mas Leite não se entusiasmou num primeiro momento. O motivo: a rejeição que havia desenvolvido às soluções de e-commerce na época. “Eu achava que e-commerce era, basicamente, colocar um catálogo de produtos no ar. Era uma visão muito ignorante mesmo. Mas tudo mudou quando ele me contou sobre a ideia, a complexidade do problema que iríamos resolver. Fiquei apaixonado pela possibilidade levar a experiência da compra física para o online. Assumi a parte de tecnologia e tocamos o Mercado Fresh até meados de 2018.”

Mão na massa

Apesar do papel central como empreendedor e investidor, Leite nunca deixou de trabalhar diretamente com tecnologia. Seu currículo sempre incluiu cargos como “Head of Engineering” ou “CTO” nessas empresas e startups em que atuou.

Por isso, quando surgiu seu mais recente desafio, ele se viu pronto para aceitar. Ele e Stuber foram trazidos pelo St. Marche para ajudar a incrementar a solução de e-commerce da rede e auxiliar a empresa em uma grande transformação digital no momento em que temas como omnichannel ficavam ainda mais fortes. Agora, mais do que nunca, levar a experiência da compra física para o online precisava virar realidade.

Em 13 de março de 2020, quando todos os países do mundo se assustavam com a rápida disseminação do coronavírus, Leite assumia como CTO do Grupo St. Marche com o objetivo de acelerar a transição para o omnichannel sem que o supermercado perdesse um de seus principais valores: o atendimento personalizado ao cliente.

“Antes, o e-commerce e o marketing físico ainda tinham ações muito independentes. Com a pandemia, tudo se misturou e os times passaram a jogar mais juntos”, conta Leite, que levou um pouco de sua experiência em anos de startup para ajudar a empresa a se transformar rapidamente.

A complexa jornada do “customer centric”

O viés empreendedor e a trajetória por diferentes startups – inclusive aquelas que “previram” soluções que só seriam viabilizadas anos depois – mostrou a Leite a importância de manter um olhar disruptivo e a mente aberta para tecnologias que simplifiquem e acelerem as operações.

Mas o elemento central nessa estrada sempre foi o mesmo: o desejo de buscar uma melhor experiência para o consumidor. “Isso é entrega de valor”, define. “O omnichannel é isso. É entender os sinais que o consumidor emite e habilitar os canais para processar esses sinais.”

Segundo Leite, plataformas grandes e estruturas pesadas tornam as empresas menos competitivas do que as concorrentes que operam com plataformas mais simplificadas. “Essas decisões estruturais podem botar tudo a ganhar ou a perder num mundo omnichannel. Para facilitar, existem plataformas e ferramentas que servem de suporte e ajudam na hora de tomar essas decisões. No fim, o objetivo é sempre criar a experiência mais saudável possível ao consumidor.”

Apesar de não ser possível prever quais serão as ferramentas e tecnologias que chegarão para melhorar as operações no futuro, Leite tem uma certeza: quem se dedicar a entregar uma experiência centrada no cliente conseguirá se manter relevante.

“No fim, o que todos querem saber é: como você consegue entregar o conteúdo certo para o cliente certo, na hora certa, no canal certo?”, diz Leite, que fez essa pergunta para o chefe de machine learning do Google dois anos atrás. “Ele me respondeu: ‘isso nem o Google sabe fazer!’. Essa é a pergunta de 1 bilhão de dólares”, brinca.

“Mas só descobriremos isso lendo o cliente e nos antecipando às suas demandas. A TI tem que se transformar no cérebro que compreende as necessidades do cliente. Mas, ao mesmo tempo, a gente não pode robotizar tudo e perder o lado humano.”

O CTO do St. Marche — e empreendedor por excelência — define essa jornada como “muito complexa”, mas tem uma certeza: enquanto puder, fará parte dela. “Quando alguém me chama para um bom desafio, minha resposta é: ‘vamos em frente’.”

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