Transparência, tecnologia e personal banking: a trajetória da Franq na visão de Gustavo Hartmann
3 de agosto de 2021
Outsider no setor financeiro, CTO explica como o open banking viabilizou o modelo de negócio da startup e conta os planos de crescimento do empreendimento

Digibee

A implementação gradual do open banking no Brasil, cuja segunda fase está programada para começar em agosto, provou o quanto o setor financeiro necessita da área de tecnologia para se atualizar.

Por isso, quando o executivo Paulo Silva começou a listar os nomes para criar uma startup que antecipasse o futuro dos bancos e instituições considerando a consolidação do open banking, ele logo percebeu que precisaria de um olhar diferente.

Boa parte de seus novos sócios tinham larga experiência em instituições financeiras. Mas faltava alguém que observasse todo aquele ambiente de maneira menos viciada. Foi aí que surgiu Gustavo Hartmann, com as credenciais necessárias para a missão: formação em TI, expertise em criação de experiências de engajamento e sangue empreendedor.

Integrar sistemas de forma confiável e escalável é premissa do open banking, mas nem sempre a tarefa é simples. Então, a Digibee conversou com  Gustavo Hartmann, CTO da Franq Open Banking, para entender os desafios tecnológicos enfrentados pelo mercado nessa jornada – e esquentar o debate

“Os sócios entenderam que seria legal ter alguém de tecnologia que tivesse a cabeça aberta, sem os vieses do setor bancário. Minha tarefa era entender a problemática e desenhar a solução”, conta Hartmann.

Nascia então a Franq Open Banking, com um time de sócios composto por Silva (CEO), Hartmann (CTO), Daniel Ferretti (CMO & Growth), Felipe Giroleti (VP Produtos) e João Boos (Head de Comercial e Expansão). 

Como uma boa história de startup, a ideia inicial da Franq Open Banking foi escrita em um pedaço de papel: uma plataforma que unisse o digital a um atendimento mais humanizado. Afinal, quando se fala em dinheiro, a relação de confiança é ainda mais importante.

Tirando o personal banking do papel

Com isso em mente, a Franq desenvolveu um marketplace que teria como público-alvo os bancários, agora na função de “personal bankers”. Na prática, a solução faz uma curadoria dos melhores produtos e serviços de fintechs e instituições e os oferece ao cliente final.

A plataforma preenche alguns gaps observados pelos sócios. Primeiro, é uma oportunidade renovada para os bancários, que perderam espaço com o enxugamento das instituições e a acelerada digitalização do setor.

“Os bancários têm conhecimento sobre produtos financeiros e contam com clientes ativos. Esses profissionais continuam sendo uma referência em investimentos, mesmo após saírem da instituição”, diz Hartmann. “Isso é muito comum, especialmente em cidades menores do interior do Brasil.  Agora, eles podem empreender por meio da plataforma.”

Em segundo lugar, a solução serve também às instituições financeiras. “Um dos grandes desafios enfrentados pelas fintechs é a distribuição. Elas dispõem de ótimos produtos que não chegam ao cliente final. As fintechs precisam criar esse motor de vendas e plugar os produtos e serviços em uma única plataforma”, defende.

A operação começou em 2019, com 40 personal bankers alocados em Florianópolis, Porto Alegre, Curitiba e São Paulo. Depois de alcançar bons resultados nos seis primeiros meses, a Franq precisou se reorganizar para enfrentar a pandemia. Aos poucos, voltou a ganhar tração – hoje, já são mais de 2 mil personal bankers, em 17 estados do Brasil, que ofertam mais de 120 produtos.

Em junho de 2021, a startup anunciou ter recebido aporte de R$ 20 milhões em uma rodada liderada pela Valor Capital. Segundo Hartmann, o investimento é resultado de uma combinação de fatores: “Os investidores estão apostando na ideia do personal banker, e nossa experiência no mercado também conta muito”.

Os obstáculos óbvios – e os escondidos – do open banking

A segunda fase do open banking dá aos clientes a possibilidade de autorizar o compartilhamento de informações sobre suas transações financeiras envolvendo contas, cartão de crédito e operações de crédito, entre outras. Essa fase de compartilhamento de dados entre as instituições estava prevista para entrar em vigor em 15 de julho, mas o Banco Central estendeu o limite até 13 de agosto. 

O adiamento ocorreu na véspera do prazo, de forma abrupta. O BC alegou que as instituições ainda finalizavam testes para a obtenção de certificações para homologação e registro de suas APIs. 

Mas a ligação da Franq com o open banking vai muito além do nome: a busca é por uma aplicação prática do conceito. “O arcabouço que permite nossa solução acontecer é o open banking”, reforça.

Na conversa com colegas, o CTO percebeu que as instituições financeiras estão enfrentando dificuldades que já eram “bola cantada”. Todos sabiam, por exemplo, que abrir a arquitetura fechada e antiga, com muitos sistemas legados, seria um desafio gigante, ainda mais com o cronograma apertado da implementação.

Mas ele lista também obstáculos menos óbvios. “No Brasil, há uma fuga de cérebros e de mão de obra. Tem gente muito boa indo trabalhar para empresas de fora, um movimento que aumentou ainda mais com a pandemia. E a força de trabalho está sob pressão, sobrecarregada e influenciada por essa alta rotatividade.”

Para Hartmann, o desafio maior das empresas não é exatamente a tecnologia, mas sim as mudanças de cultura, governança e tratamento dos dados, em especial quanto à integração dos sistemas – tarefa que, segundo ele, está bastante atrelada à maturidade do parceiro. 

“Na ponta da integração, temos o mundo perfeito de parceiros com APIs maravilhosas, estáveis, orientadas ao padrão do open banking e com capacidade técnica de ajustá-las. Há também aqueles que integram com a gente usando uma planilha de Excel”, revela. “Mas essa é a nossa proposta, então temos que lidar com essa demanda.”

Empoderamento e transparência 

Os investimentos permitem à Franq mirar no cadastro de 5 mil personal bankers até o fim de 2021, chegando a mais de 25 mil no fim de 2022. Uma expansão “agressiva”, como define o CTO.

Além da venda de produtos, a Franq oferece outras oportunidades para o personal banker, como consultoria de imagem, marketing digital e treinamentos gerais, para que ele possa se reinventar e entender como gerir uma empresa.

“A Franq quer transmitir franqueza e transparência. Todos estão cansados de serem empurrados a comprar o seguro desnecessário. Nosso movimento é trazer a experiência para essa relação de compra, na qual o elemento humano é o catalisador do negócio.”

O CTO conta que o conceito de inclusão que a empresa tenta evidenciar é o que mais lhe motiva na empreitada. “Há um aspecto social importante em incluir um profissional fora do mercado e usar a tecnologia como forma de instruir as pessoas. É um propósito que vai além do financeiro.”

O objetivo posterior é se aproximar do cliente final, entregando produtos mais adequados ao que os consumidores de fato estão precisando. “Mas a nossa ideia principal, especialmente neste momento, é empoderar o personal banker e ajudá-lo a fazer a transição do off-line para o mundo mais moderno.”

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